No jogo da vida, o que vem primeiro? Ser ou existir?
- Psicóloga Juliana Borges

- 1 de mar. de 2025
- 2 min de leitura

Resumo: É notável que a inteligência humana é capaz de grandes feitos. Há tempos, somos capazes de existir e desenvolver uma inteligência artificial que cria uma ir-realidade paralela. Entretanto, com isso, observa-se um cenário atual preocupante: a incapacidade de ser e assim, sustentar uma vida real, que tenha valor e que faça sentido.
Na teoria da psicanálise winnicottiana, os conceitos de Ser e Existir estão profundamente entrelaçados com o desenvolvimento emocional e psíquico do indivíduo. Winnicott argumenta que o "Ser" é um estado primordial de autenticidade, uma sensação de existência genuína que emerge quando um indivíduo é capaz de se conectar com suas emoções mais profundas e viver de maneira
integrada. Esse estado de Ser é inicialmente sustentado pela presença de um ambiente
suficientemente bom que proporciona cuidados adequados e responsivos às necessidades do bebê.
Esse cuidado inclui as funções de holding, handling e a apresentação de objetos, permitindo que o bebê desenvolva uma sensação de segurança e continuidade.
Em contraste, o "existir" pode se tornar um estado de superficialidade e desconexão, onde as ações e interações são mecânicas e desprovidas de profundidade emocional. A escassez de cuidado humano, exacerbada pela tecnologia, pode levar a um sentimento de vazio, a não integração e desintegração, dificultando a capacidade do indivíduo de se sentir vivo e real. Para Winnicott, overdadeiro estado de Ser só pode ser alcançado através de um processo contínuo de integração das experiências de vida, facilitado por um ambiente que respeite e nutra a subjetividade e a
individualidade.
Nos tempos atuais, tanto se faz e pouco se sente. Essa dicotomia entre Ser e Existir se torna ainda mais complexa devido ao avanço da tecnologia e às mudanças sociais. A era digital, com sua constante conectividade e sobrecarga de informações, pode tanto facilitar quanto dificultar o desenvolvimento de um estado autêntico de vir à ser. Se por um lado, a tecnologia oferece novas formas de expressão e conexão, potencialmente enriquecendo a experiência humana, por outro, o abuso da tecnologia e da inteligência artificial pode levar à irrupção do espaço intermediário onde a criatividade e a verdadeira experiência subjetiva emergem.
Sabemos da importância do cuidado humano autêntico e da criação de ambientes que
permitam aos indivíduos desenvolverem um senso de ser genuíno, fundamental para a integração, saúde emocional e realização pessoal. No entanto, pensando na contemporaneidade e à luz da psicanálise winnicottiana, o nosso grande desafio é encontrar um equilíbrio entre a utilização das tecnologias e a manutenção de um espaço potencial saudável. Portanto, a proposta deste trabalho é trazer reflexões sobre o cenário atual e as condições que temos para fazer uso adequado (ou não)
das diversas possibilidades tecnológicas apresentadas a nós e às futuras gerações.




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