A corrida contra o tempo
- Psicóloga Juliana Borges

- 7 de mar. de 2025
- 7 min de leitura
Autores: Caroline Ferrer dos Santos
Macedo e Juliana Borges Carreira**

"Time", uma das músicas mais emblemáticas do Pink Floyd, lançada no icônico álbum
The Dark Side of the Moon em 1973, oferece uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade do envelhecimento. A canção captura a angústia e a frustração que surgem ao perceber que os anos se passaram sem que sonhos e objetivos de vida tenham sido alcançados, evocando uma meditação poderosa sobre a transitoriedade da existência. Somos convidados a uma reflexão profunda sobre o fluxo da vida e o significado que atribuímos à nossa existência, que nos instiga a enxergar o tempo não apenas como uma medida cronológica, mas como um espaço vivo e pulsante, onde cada instante representa uma oportunidade para o crescimento pessoal. "Time" se destaca pela profundidade de suas letras, pela complexidade instrumental e pelo impacto emocional.
O início da música descreve uma sensação de estagnação e apatia, onde os dias se
arrastam em monotonia e as horas se esvaem sem propósito. Conforme a canção avança, ocorre uma mudança de tom com a percepção abrupta de que o tempo está passando rapidamente. A letra, escrita por Roger Waters, é profundamente filosófica e existencial, enquanto a estrutura da música, com sua mistura de compassos, cria uma sensação de desorientação temporal. A melodia é igualmente rica e envolvente, alternando entre momentos de suavidade e explosões de intensidade.
Refletindo sobre a contemporaneidade, surge a questão: como ocorre e se mantém o
amadurecimento humano ao longo do tempo que vivemos e do espaço que ocupamos? A letra de “Time” nos lembra que a vida começa muito antes do que geralmente imaginamos e que o amadurecimento é um processo contínuo, iniciando-se na concepção e estendendo-se por toda a existência. Essa percepção do tempo como a própria essência da vida ressoa profundamente com a teoria winnicottiana, que destaca a importância de cada experiência vivida e como ela pode influenciar o desenvolvimento pessoal.
Winnicott, em sua teoria da criatividade, descreve uma terceira área da experiência
humana onde a realidade interna e externa se sobrepõe, constituindo o Espaço Potencial, um campo fértil para a experiência criadora. A música "Time" nos convida a entrar nesse espaço criador, permitindo ao ouvinte participar da música e, assim, construir sua própria experiência. Nessa perspectiva, a música revela nuances profundas, entrelaçando a temporalidade com a jornada de vida de cada indivíduo. A referência a "esperar por alguém ou algo para mostrar o caminho" sugere uma busca por propósito ou direção na vida, evidenciando a importância do ambiente e das relações na construção do self.
A letra de "Time" faz um chamado urgente para preencher o tempo com experiências
significativas. É como se a música nos lembrasse que o tempo, por si só, não basta; ele precisa ser preenchido com o movimento da alma, com o engajamento na vida, para que possamos olhar para trás e ver um rastro de momentos que tenha sentido, marcados pela nossa própria autenticidade. Essa visão se alinha com a teoria de Winnicott, que vê o amadurecimento como um processo ativo, onde o tempo é o tecido sobre o qual bordamos nossas histórias de vida.
Na teoria winnicottiana, a temporalização é crucial, pois se refere à forma como o
indivíduo desenvolve uma percepção do tempo ao longo do processo de amadurecimento. No início da vida, o bebê vive em um estado de "ser" onde as necessidades são imediatamente satisfeitas pelo ambiente, geralmente representado pela figura materna. À medida que o bebê se desenvolve e começa a experienciar frustrações, ele passa a perceber o tempo, manifestado na espera entre a necessidade e sua satisfação.
Esse processo de temporalização permite ao indivíduo desenvolver uma sensação de
continuidade e coesão em sua vida, integrando passado, presente e futuro. A espacialização, por sua vez, refere-se à maneira como o indivíduo constrói a percepção do espaço ao seu redor. O espaço psíquico é criado a partir das primeiras interações do bebê com o ambiente, possibilitando ao indivíduo situar-se no mundo, criar um sentido de identidade e desenvolver relações interpessoais.
A empatia começa a ser desenvolvida nesse período, com a mãe e o bebê formando
uma unidade através do cuidado mútuo. Winnicott exemplifica essa mutualidade com o gesto de um bebê que, ao mamar, coloca o dedo na boca da mãe, demonstrando um movimento de vai e vem, como se fosse “eu recebo, portanto, vou dar de volta”. A empatia, o amor e o cuidado são fundamentais nesse processo de amadurecimento, onde o bebê é amado e responde amando, estabelecendo as bases para relações futuras.
Para que o valor do tempo e da vida seja experienciado plenamente, o indivíduo
precisa desenvolver a capacidade de ser ele mesmo, alcançando as bases fundamentais do self. A teoria do amadurecimento de Winnicott sugere que isso só é possível através de um cuidado profundo e contínuo, onde o mundo é apresentado ao bebê em doses pequenas, ajustadas às suas necessidades. O amadurecimento envolve não apenas a capacidade de viver no tempo e no espaço, mas de criar e habitar um espaço-tempo psíquico próprio, onde o indivíduo possa ser autêntico e encontrar sentido em sua vida.
"Time" reflete sobre a rapidez com que o tempo escapa por entre nossos dedos,
especialmente em um mundo cada vez mais acelerado e superficial. A letra nos lembra da importância de encontrar espaço para respirar, para sentir, para ser. Nesse sentido, o ambiente descrito por Winnicott é essencial para que possamos encontrar equilíbrio e aconchego no tempo e no espaço, permitindo-nos viver de maneira plena e significativa, sem sermos arrastados pela correnteza do tempo.
A música, com sua melodia hipnótica e letras introspectivas, nos convida a fazer uma
pausa, a olhar para dentro e a refletir sobre o que realmente importa. Ela nos pede para
transformar nosso tempo em algo mais do que uma sequência de dias e horas, mas em uma coleção de momentos que ressoam com quem realmente somos. Isso só é possível em um ambiente que sustenta e nutre, permitindo que o indivíduo se sinta seguro para viver suas próprias experiências.
No coração da teoria winnicottiana está o conceito de "vir a ser" um processo pelo qual o indivíduo realiza seu verdadeiro potencial, encontrando sua própria voz e caminho.
Este vir a ser é uma dança delicada entre o indivíduo e o tempo é na tecelagem do tempo que o ser encontra a si mesmo, que floresce e se expande. Viver de forma autêntica requer coragem para abraçar o tempo e integrar as experiências acumuladas ao longo da vida.
"Time" nos lembra que o tempo é implacável, mas, em vez de nos aterrorizar com essa
verdade, a canção nos encoraja a usar o tempo como uma ferramenta, um aliado na construção de uma vida cheia de significado. Viver uma vida rica em experiências não é apenas uma questão de fazer o máximo possível em um curto período é sobre viver com presença, intenção e uma profunda conexão com o que é verdadeiramente importante para nós.
Winnicott nos ensina que o amadurecimento envolve a integração dessas experiências
ao longo do tempo. O passado, com suas lições e memórias, nos dá um lugar para descansar; o presente nos oferece a oportunidade de agir e viver plenamente; e o futuro nos chama com promessas e sonhos que nos motivam a continuar. "Time" ecoa essa visão ao nos lembrar que só com uma vida cheia de experiências teremos algo de valor para recordar, algo que nos dará paz e satisfação quando olharmos para trás.
A aceitação da finitude é um dos aspectos mais delicados e profundos do
amadurecimento. Winnicott nos mostra que parte do amadurecimento é chegar a um lugar onde a morte não é mais temida, mas compreendida como uma parte natural da vida. “Que eu possa estar vivo quando morrer” "Time", com sua reflexão sobre a mortalidade, nos oferece uma perspectiva semelhante ao reconhecer a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, somos incentivados a viver de forma mais plena e verdadeira.
A canção sugere que, ao invés de lutarmos contra o tempo, devemos acolhê-lo como
um guia que nos leva a viver de maneira mais consciente. A serenidade vem quando
aceitamos que o tempo é parte do ciclo da vida, e que cada momento é uma oportunidade de crescimento e amadurecimento. Assim, a temporalidade, ao invés de ser uma fonte de angústia, torna-se uma aliada na nossa jornada de autodescoberta e realização.
"Time" quando vista através das lentes da teoria de Winnicott, revela-se não apenas
como uma canção sobre a passagem do tempo, mas como um hino à vida autêntica e ao amadurecimento pessoal. A música nos convida a refletir sobre como estamos vivendo nosso tempo, e a teoria winnicottiana nos oferece um caminho para entender como podemos sustentar nosso amadurecimento ao longo da vida.
O final da música traz uma sensação de retorno ao lar e ao conforto, mas também a
lembrança da mortalidade com o som do sino de ferro chamando os fiéis para a oração.
"Time" é uma obra que nos convida a refletir sobre como vivemos nossas vidas e a
importância de valorizar cada momento antes que seja tarde demais.
Ao reconhecer a importância do ambiente, da temporalidade e das experiências
vividas, tanto a canção quanto a teoria nos encorajam a viver de maneira que cada momento se torne uma parte vital de quem somos. "Time" e Winnicott nos lembram que, no final, o que realmente importa é a qualidade do tempo, das relações que vivemos e como experienciamos a vida enquanto seres humanos completos. Pois, no final, o que realmente importa é se a vida valeu a pena ser vivida.
** Caroline Ferrer dos Santos Macedo é formada em Psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, atualmente é filiada e faz o curso de formação em psicanálise winnicottiana no Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicotiana de São Paulo e Juliana Borges Carreira é formada em psicologia pela Universidade de Uberaba, atualmente é filiada e faz o curso de formação em psicanálise winnicottiana no Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicotiana de São Paulo.




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