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Afinal, quem “EU SOU” quando torno independente?



A vida moderna exige cada vez mais de forma intensa e implacável. Desde o momento

em que somos concebidos, ou até antes, somos atravessados por uma imensidade de

estímulos que, ao invés de promoverem um desenvolvimento saudável, frequentemente resultam em um crescimento cronológico precoce e forçado. Embora tenhamos uma tendência natural ao amadurecimento, como observou Donald Winnicott, isso não significa que esse progresso esteja alinhado com um desenvolvimento maduro e, mais importante, verdadeiro. O fardo das expectativas, somado a uma lista interminável de tarefas e deveres, muitas vezes impede que o processo de amadurecimento se dê de forma orgânica e integrada.


Em sua teoria, Winnicott alega que esse amadurecimento tem início em algum momento após a concepção e se estende ao longo da vida do indivíduo, sendo que a última experiência a ser integrada é a morte. Integração é um termo importante da teoria winnicottiana e, nesse sentido, toda experiência deverá ser integrada à personalidade, desde que as experiências sejam vivenciadas a partir de um si-mesmo. Todavia, para que mais adiante haja um si-mesmo, são necessárias algumas conquistas maturacionais. Essas primeiras conquistas dependem da adaptação absoluta da pessoa responsável por cuidar e atender (mãe), às necessidades do seu bebê.


Winnicott denomina esse período como preocupação materna primária, no qual é um

estado psicológico temporário e altamente sensível que se experimenta nas primeiras

semanas ou meses após o nascimento do bebê. Nesse estado, a mãe se torna

intensamente focada nas necessidades do bebê, desenvolvendo uma capacidade de

sintonizar-se profundamente com ele, de forma quase intuitiva. É nessa fase, que a mãe

entra em um estado de identificação profunda com o bebê, sendo capaz de perceber e

responder rapidamente às suas necessidades, muitas vezes antes mesmo que ele as

manifeste. Embora seja um estado temporário, ele desempenha um papel vital no

desenvolvimento inicial da criança, preparando-a para se relacionar de maneira saudável com o mundo e com os outros à medida que cresce. Esse ambiente que exerce a maternagem de forma imperceptível para o bebê é denominado por Winnicott como mãe suficientemente boa. Um(a) cuidador(a) primordial humano, real, não perfeito, mas suficientemente bom, identificado com o bebê, consegue se adaptar às necessidades dele e oferece cuidados adequados quando as necessidades surgem, respeitando os seus gestos espontâneos.


Mantendo essa linha, nos primeiros meses da vida do bebê, a “mãe suficientemente

boa” tem três funções, assim sintetizadas por Winnicott (1974): holding (sustentação),

handling (manejo) e a apresentação dos objetos. Um holding adequado que possibilite

ao bebê a temporalização e espacialização, paralelamente a um handling adaptado

absolutamente às necessidades dele, e tornando-os uma unidade. Estes movimentos de

amamentar, trocá-lo, limpá-lo, num manejo adequado e devotado, possibilitam que vá

ocorrendo gradativamente o alojamento da psique no corpo. Esse processo é facilitado

pela comunicação não verbal, como o toque, o olhar e as expressões faciais, que ajudam a criar um ambiente de segurança e confiança. Segundo o autor, é nesse período que a identificação cruzada poderá começar a ser experienciada.


A identificação cruzada é a capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que o

outro sente, ou seja, a base da empatia. É na identificação com o seu bebê que a mãe se

empatiza e, portanto, se comunica, através do cuidado, do manejo, da comunicação não

verbal, e ele, responde ao gesto de quem se dispõe, se dedica, se conecta com a

sensibilidade em cuidar.


Podemos perceber quando um bebê de 3 meses está mamando na mamadeira ou no seio e coloca o dedo na boca da mãe, olhando para ela. No texto a amamentação como forma de comunicação, Winnicott vai dizer que é um gesto de mutualidade. Aqui, o bebê sente que está recebendo algo, um movimento de vai e vem: “eu recebo, portanto, vou dar de volta”. Mais adiante, nesta relação mútua, a percepção fica mais sofisticada: “eu sou cuidado, vou cuidar”, é o gesto percebido e devolvido. Para isso, é necessária a empatia, o bebê se compadece com quem o cuida. O bebê é amado e ele responde amando. O amor, é um exemplo, é uma mutualidade e inicialmente a vivência é experienciada com a pessoa que ocupa a maternagem.


Seguindo essa linha de raciocínio, entendemos que a constituição de um indivíduo

saudável ocorre ao longo de todo do cuidado oferecido nesse percurso mencionado até

aqui. Posteriormente, e de forma gradual, o cuidador pode começar a falhar

moderadamente e a se afastar, permitindo que o indivíduo perceba o mundo externo (o

"não-eu") e seja apresentado a ele em pequenas doses. E essa desilusão, que se traduz em falhas ambientais paulatinas, vai possibilitar o início das funções intelectuais. O bebê aqui já percebe certos padrões ambientais e desenvolve esquemas mentais do tipo: “se isso ocorre, logo vem aquilo” (consequências).


Com o tempo, a criança passa a perceber o amor e ódio sentidos pelo mesmo objeto e

pelo mundo que existe fora dela, bem como a realidade de que possui impulsos

amorosos e destrutivos direcionados à mãe ou objetos externos objetivamente

percebidos. Somente uma provisão ambiental adequada é capaz de possibilitar essa

relação, pois, para Winnicott (1945), o concernimento é avaliado como uma experiência

que exige um desenvolvimento emocional de modo que o bebê consiga relacionar e

integrar a mãe-ambiente e a mãe-objeto em sua mente. Por isso, se tudo vai bem, nessa

perspectiva, o bebê desenvolve de forma crescente esse tipo de atitude com os outros.

Começando com os integrantes familiares mais próximos e, em conseguinte, com a

sociedade. É um processo que ele vai experimentando, aprendendo e poderá tender a se relacionar com a realidade de forma integrada, reconhecendo os objetos externos do

mundo real de forma criativa.


A verdade é que crescer nunca foi uma tarefa simples, mas o que observamos com

frequência na clínica é a crescente dificuldade que muitos enfrentam ao lidar com a

realidade e assumir as responsabilidades inerentes à vida adulta. Essa transição,

marcada pela necessidade de "fazer e acontecer, antes de ser e sentir", leva muitos jovens a um estado de alienação, onde as idealizações construídas ao longo da infância e adolescência entram em colapso diante das exigências da vida adulta. Quando essas idealizações não se concretizam, o que resta é um vazio profundo, acompanhado de dúvidas, inseguranças e uma sensação de fragmentação.


Um dos maiores desafios enfrentados pelos jovens em transição para a vida adulta é a

dificuldade de se encontrar verdadeiramente em meio às pressões externas e às

expectativas sociais. Winnicott enfatiza a importância do desenvolvimento de um self

verdadeiro que se forma através de experiências autênticas e espontâneas, em um

ambiente suficientemente bom. No entanto, muitos jovens são direcionados a se

conformar com uma irrealidade, moldada pelas demandas externas de desempenho

acadêmico, profissional e social, que frequentemente não refletem suas verdadeiras

necessidades e desejos. Essa conformidade pode levar à construção de um falso, onde o indivíduo negligencia suas próprias necessidades em favor das expectativas alheias.


Como consequência, surge uma sensação de vazio e uma falta de autenticidade,

dificultando a formação de uma identidade sólida, coerente e real. O desafio torna-se

então: como assimilar essas mudanças e se apropriar de si mesmo em meio a um cenário que não favorece o desenvolvimento dessas capacidades?


Sabemos que na teoria de Winnicott, o desenvolvimento saudável do self está

profundamente ligado à qualidade do ambiente em que o indivíduo cresce. Esse

ambiente oferece a base para que a criança possa enfrentar frustrações e desafios de

forma gradual, sem se sentir sobrecarregada ou ameaçada. No entanto, atualmente,

muitos jovens crescem em ambientes (ambiente no sentido amplo, como camadas:

responsáveis, família, sociedade, estado), que podem ser excessivamente controladores

ou negligentes, ambos extremos que dificultam o desenvolvimento de um self

verdadeiro. Em um ambiente controlador, as expectativas externas e as pressões para o

sucesso podem levar o jovem a se conformar com um self falso, adaptando-se às

demandas externas em detrimento de suas próprias necessidades e desejos. Já em um

ambiente negligente, a falta de suporte e orientação pode deixar o jovem perdido e

desamparado, sem referências sólidas para construir sua identidade.


Na sociedade atual, o imediatismo e a pressão por sucesso rápido interferem

diretamente nesse processo de amadurecimento. O valor atribuído à produtividade, ao

status e às conquistas materiais, como diplomas, empregos bem remunerados e bens de consumo, coloca os jovens em uma constante busca por aprovação externa. Eles

frequentemente se sentem compelidos a atender essas demandas sociais antes de

conseguirem estabelecer uma narrativa própria, refletida em suas vivências e no

desenvolvimento de uma identidade sólida. A adaptação a esses padrões cria um self

falso, onde o jovem realiza, superficialmente, as expectativas dos outros,

negligenciando suas próprias necessidades e desejos.


Bom, Guilherme, um jovem de 22 anos, “independe”, bonito, bem sucedido, é um

exemplo de como essa pressão pode dificultar o amadurecimento. Embora tenha

conquistado sucesso material e acadêmico, ele se sente vazio e sem sentido. Suas

experiências de vida, que incluem relacionamentos conturbados e um papel de cuidador precoce dentro da família, o fizeram amadurecer antes da hora, mas de forma

incompleta. Ele não desenvolveu uma identidade verdadeira, o que se reflete na

incapacidade de encontrar satisfação em suas conquistas. O sucesso profissional e

material, que a sociedade valoriza, não preenche sua necessidade de viver uma

experiência autêntica consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.


Seus relacionamentos amorosos, marcados por dependências emocionais e

responsabilidades desiguais, mostram uma busca por atender as expectativas do outro,

sem que ele tenha espaço para explorar seus próprios sentimentos e limites. Ao cuidar

excessivamente das necessidades de suas parceiras e de sua irmã, Guilherme

negligencia seu próprio amadurecimento emocional. Isso reflete o self falso que ele

construiu, em que o papel de "cuidador" o define, mas não o satisfaz emocionalmente.


A comunicação superficial nas relações modernas, onde o imediatismo prevalece, torna

difícil para os jovens como Guilherme estabelecer conexões profundas. As relações são

marcadas por exigências e trocas rápidas, muitas vezes sem espaço para que os

indivíduos explorem suas verdadeiras emoções e desejos. Essa falta de profundidade

nas interações impede que os jovens desenvolvam um senso de pertencimento autêntico e uma narrativa própria que lhes permita enfrentar os desafios da vida adulta com autonomia.


Além disso, a ausência de uma narrativa de vida coerente faz com que muitos jovens se

sintam perdidos ao tentar encontrar sentido em suas conquistas e em sua própria

identidade. A pressão para alcançar o sucesso material rapidamente muitas vezes inibe a capacidade de os jovens refletirem sobre quem são, o que realmente desejam e como

querem viver suas vidas. Ao invés de amadurecerem emocionalmente, eles permanecem presos em uma busca incessante por validação externa, sem a construção de um verdadeiro self. Isso resulta em uma geração de adultos jovens que, embora tenha sucesso aparente, se sente incompleta e desconectada de suas próprias experiências e emoções.


A transição para a vida adulta é um processo complexo, que vai além de marcos

cronológicos ou sociais. Ser adulto não se resume a atingir uma certa idade ou a cumprir determinados rituais de passagem, como se formar na faculdade, começar um emprego ou constituir família. Esses eventos são, sem dúvida, importantes, mas a verdadeira essência de ser adulto está na capacidade de integrar essas experiências em um sentido de identidade e autonomia, mantendo-se fiel ao próprio self verdadeiro.


Uma pessoa adulta é aquela que consegue sustentar uma continuidade entre suas

experiências internas e externas, agindo de forma que seus pensamentos, sentimentos e ações estejam alinhados com seu verdadeiro eu. Isso envolve encarar a realidade e

assumir responsabilidades, não apenas no sentido de cumprir obrigações, mas de fazê-lo de maneira que reflita uma compreensão profunda de si mesmo e do mundo ao seu

redor. O adulto é capaz de tomar decisões baseadas em suas próprias convicções e

valores, mesmo quando essas decisões não estão em conformidade com as expectativas dos outros.


Além disso, ser adulto significa lidar com a complexidade da vida de forma madura e

resiliente. Isso inclui a habilidade de navegar por situações difíceis, aceitar a

ambiguidade e a incerteza, e adaptar-se às mudanças inevitáveis que a vida impõe.


Winnicott contribui com uma visão valiosa sobre o amadurecimento, destacando a

importância de um ambiente suficientemente bom que permita ao indivíduo

desenvolver-se de maneira integrada. No entanto, o ambiente não é apenas algo que

encontramos externamente; ele também deve ser construído internamente, na forma de uma relação saudável consigo mesmo. Ser adulto, portanto, envolve a capacidade de

criar e manter esse ambiente interno, onde o self verdadeiro possa florescer e se

expressar plenamente.


Ser adulto é alcançar um equilíbrio entre autonomia e responsabilidade, entre o self

verdadeiro e as demandas da realidade externa. É um estado de maturidade onde o

indivíduo se apropria de si mesmo, tomando posse de sua história, de suas escolhas e de seu futuro, com a capacidade de viver de forma autêntica e plena, apesar das inevitáveis adversidades da vida.


A interrupção na continuidade de ser, conforme descrito por Winnicott, é um

fenômeno visível em diversas camadas da sociedade contemporânea. Em uma era

caracterizada pela fragmentação das experiências, pela aceleração do tempo e pela

superficialidade das relações, as exigências incessantes por produtividade, o culto à

imagem e a desconexão entre o ser e o fazer ameaçam constantemente a continuidade de existir. Esse ambiente de pressão e superficialidade mina a capacidade dos indivíduos de manter uma sensação consistente de si mesmos, contribuindo para a sensação de descontinuidade e alienação.


Não é possível pensar no futuro da humanidade sem considerar os primeiros

anos de vida. A partir dessa reflexão, torna-se evidente a necessidade urgente de

reavaliar a qualidade das primeiras interações e cuidados oferecidos às crianças no

contexto atual. Para isso, é fundamental aprofundar a compreensão das condições

familiares contemporâneas em diversos aspectos, como o fator socioeconômico, o

acesso à saúde básica, educação e seus impactos no desenvolvimento humano.


A saúde de uma sociedade está profundamente conectada à saúde de seus indivíduos, e vice-versa. Segundo Winnicott (1949), uma sociedade marcada por guerras, regimes

autoritários e grandes desequilíbrios sociais, econômicos e culturais reflete um estado de adoecimento social. Para que uma sociedade seja considerada saudável, é essencial que aja um número significativo de indivíduos saudáveis. Uma sociedade saudável deve

assegurar as condições necessárias para o crescimento, amadurecimento e

desenvolvimento pleno de seus membros. Dessa forma, a construção de uma sociedade democrática é possível dentro da perspectiva winnicottiana.


A psicanálise winnicottiana oferece uma perspectiva enriquecedora sobre o

papel da família, concebendo-a como uma comunidade que pode suprir as lacunas de

cuidado que, por vezes, estão presentes no núcleo familiar biológico. Quando o

indivíduo não experimenta o holding adequado na família biológica, a convivência em

uma rede familiar ampliada pode proporcionar um sentimento de contorno, oferecendo a experiência de pertencimento que pode ter faltado inicialmente. Esse tipo de convivência permite ao indivíduo interagir em círculos sociais diversos, o que é crucial para sua saúde maturacional. O sucesso desse processo depende da capacidade do indivíduo amadurecido de se integrar à sociedade, ajustando-se conforme necessário para atender às suas próprias necessidades e assumir a responsabilidade de manter e transformar seu meio social.


Tudo isso nos mostra que, subjetivamente, não é na realidade externa que vivemos e nos sentimos reais, e não é da realidade externa que nos vem o sentido de real. Nós

habitamos, diz Winnicott (1970), no espaço potencial. Isto significa viver criativamente.

A criatividade é “a manutenção, através da vida, de algo que pertence à experiência

infantil: a capacidade de criar o mundo”. (Winnicott, 1970, p.24). Toda criança precisa,

“tornar-se capaz de criar o mundo (a técnica adaptativa da mãe faz com que isso seja

sentido como um fato), caso contrário, o mundo não terá significado”. (Winnicott, 1966,

p.116).

 
 
 

7 comentários


yuanliu kind
yuanliu kind
14 de out. de 2025

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yuanliu kind
yuanliu kind
14 de out. de 2025

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yuanliu kind
yuanliu kind
14 de out. de 2025

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yuanliu kind
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14 de out. de 2025

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yuanliu kind
yuanliu kind
14 de out. de 2025

Que análise profunda e bem fundamentada! É evidente o tempo e o esforço dedicados à pesquisa e à organização das informações. A forma como você tece os diferentes aspectos do tema é impressionante e proporciona uma visão completa. Acredito que a busca contínua por conhecimento é fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional. E quando se trata de otimizar estratégias e alcançar resultados concretos, ter acesso a dados e insights relevantes faz toda a diferença. Para quem busca ferramentas e informações para impulsionar seus negócios, recomendo explorar as soluções que oferecemos em SEO.

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